O Farol de Lubumbashi

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Odisseia agora a sério

Há lugares-comuns que causam discórdia. Frases como "Quero ser feliz" são hasteadas como bandeiras pelas gatas borralheiras e desdenhadas pelos irónicos de profissão.
Se encararmos o "ser feliz" como um fim, como um objectivo, que gera dúvida, que suscita dissonância, podemos afirmar que, por outro lado, a viagem que fazemos e que pode aportar nesse (ou noutro) destino, mobiliza consonâncias.
Na verdade, a vida não se mede em segmentos de recta, entre os pontos A e B; a vida mede-se na linha, nunca recta, em desconhecimento constante de onde se encontra o princípio e o fim.
O que resta? A viagem. Esta sente-se: vive-se.
"Ser feliz" é um conceito que atribuímos a um futuro que não dominamos. Resta-nos apenas viver entre passadozinhos e futurinhos, com objectivos presentes, conscientes de que a linha recta não existe. A clarividência no presente permitir-nos-à dizer: "Sou feliz"; nunca: "Quero ser feliz".

O que nos faz amar a Odisseia quase três mil anos depois?
E porque razão três mil anos não têm qualquer peso, nem limitações de entendimento?
A resposta é muito simples: a viagem.
A viagem de Ulisses de regresso a casa.
A viagem de Penélope de regresso a Ulisses.
A viagem de Telémaco entre o pai imaginado e o pai real.
A viagem da soberba à legitimidade.
A viagem de Homero sem fim à vista.
A viagem: sinuosa, difícil, perseverante, derrotista, vencedora.

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