O Farol de Lubumbashi

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quarta-feira, 23 de julho de 2014

Odisseia vai bem com

Sopa
Sopa de nabiças

Prato principal
Feijões enlatados com salsichas

Sobremesa
Laranja (por causa do escorbuto)

Bebida
Água (sem sal) e Vinho tinto

Música de acompanhamento:


Filme de acompanhamento (baseado numa história fictícia):

Palavras da Odisseia

Palavras que aprendi com a Odisseia:

Ambrósia: Alimento dos deuses.
Arúspice: s.m. Sacerdote que, no sacrifício, predizia o futuro pelo exame das entranhas das vítimas.
Deslassar: Tornar(-se) lasso; afrouxar(-se), alargar(-se). Cf com deslaçar.
Égide: s.f. Mitologia Grega. O escudo que pertencia à deusa grega Palas Atena.
            Figurado. Aquilo que pode servir para amparar; defesa ou proteção.
Evolou: evaporou.
Piscoso: adj. Que possui uma grande quantidade de peixes: lago piscoso.

Palavra que estão presentes na Odisseia e que gosto de ver em livros:

Boieiro: Condutor ou pastor de bois.
Deletéria: adj. Venenoso; que ataca a saúde; nocivo. / Fig. Que corrompe.

Expressões que abichanam um leitor em Odisseia

"Esta é a única homenagem que aos pobres podemos prestar:
cortar o cabelo e deixar cair do rosto uma lágrima."
Canto IV, vv. 197-198

Zeus para Atena:
"Que palavra passou para além da barreira dos teus dentes?"
Canto V, v. 22

Ulisses na praia onde o mantinha cativo Calipso:
"E com os olhos cheios de lágrimas fitava o mar nunca vindimado."
Canto V, v. 84

Ulisses responde ao rei Alcínoo:
"Pois nós, as raças de homens na terra, somos rápidos na ira."
Canto VII, v. 307

Melhor comparação de sentimentos de sempre:
"E o coração aguentou, mantendo-se em obediência
completa. Ele é que dava voltas e voltas na cama.
Tal como o homem à frente de um grande fogo ardente
revolve um enchido recheado de sangue e gordura
sem parar, na sua ânsia de que se asse rapidamente -
assim Ulisses se revolvia na cama, pensando como
haveria de pôr as mãos nos desavergonhados pretendentes,
um homem contra muitos."
Canto XX, vv. 23-30 

Odisseia agora a sério

Há lugares-comuns que causam discórdia. Frases como "Quero ser feliz" são hasteadas como bandeiras pelas gatas borralheiras e desdenhadas pelos irónicos de profissão.
Se encararmos o "ser feliz" como um fim, como um objectivo, que gera dúvida, que suscita dissonância, podemos afirmar que, por outro lado, a viagem que fazemos e que pode aportar nesse (ou noutro) destino, mobiliza consonâncias.
Na verdade, a vida não se mede em segmentos de recta, entre os pontos A e B; a vida mede-se na linha, nunca recta, em desconhecimento constante de onde se encontra o princípio e o fim.
O que resta? A viagem. Esta sente-se: vive-se.
"Ser feliz" é um conceito que atribuímos a um futuro que não dominamos. Resta-nos apenas viver entre passadozinhos e futurinhos, com objectivos presentes, conscientes de que a linha recta não existe. A clarividência no presente permitir-nos-à dizer: "Sou feliz"; nunca: "Quero ser feliz".

O que nos faz amar a Odisseia quase três mil anos depois?
E porque razão três mil anos não têm qualquer peso, nem limitações de entendimento?
A resposta é muito simples: a viagem.
A viagem de Ulisses de regresso a casa.
A viagem de Penélope de regresso a Ulisses.
A viagem de Telémaco entre o pai imaginado e o pai real.
A viagem da soberba à legitimidade.
A viagem de Homero sem fim à vista.
A viagem: sinuosa, difícil, perseverante, derrotista, vencedora.

Odisseia contada noutra história

Entretanto, em Ítaca:

ULISSES: Querida, vou sair.
PENÉLOPE: Aonde vais?
ULISSES: Vou comprar cigarros.
PENÉLOPE: Estás doido? Olha que isso mata! Espera lá: mas tu não fumas!
ULISSES: Estava a brincar! Vou só ali participar numa guerra e já volto.
PENÉLOPE: Ah, estavas a assustar-me. Vai lá. Aproveita e traz pão, já que vais à rua.
ULISSES: Prometido.
PENÉLOPE (a pensar): Ainda bem que vai apanhar ar. Já estou farta do pó e serrim que vem da carpintaria, sempre a construir cavalinhos de pau. Um, ainda vá que não vá, para o Telémaco brincar. Agora, cinquenta? Ainda se fizesse um aparador para o hall de entrada...

Vinte anos depois

ULISSES: Querida, cheguei!
PENÉLOPE: Quem vem lá?
ULISSES: Sou eu, Ulisses, Odisseus para os amigos, rei de Ítaca e teu marido.
PENÉLOPE: Espero que estejas a brincar. O meu marido morreu.
ULISSES: Mas... Mas... Eu sou eu.
PENÉLOPE: Ai, sim? Prova-o!
ULISSES (começa a tirar as calças): Os teus desejos são ordens.
PENÉLOPE: Puxa as calças para cima! Não é nada disso!
ULISSES: Então?
PENÉLOPE: Onde está o pão?
ULISSES: Chiça! Esqueci-me! Vou buscar imediatamente.
PENÉLOPE: Nem penses! Vai à sala e limpa-a.
ULISSES: Está muito suja?
PENÉLOPE: Está cheia de pretendentes ao teu trono.
ULISSES: Ah, já entendi.
PENÉLOPE: Antes de ires, diz-me porque demoraste tanto.
ULISSES: Não vais acreditar: no final da guerra andei às voltas com o barco, até porque ainda não inventaram a bússola, depois fui sequestrado por uma deusa que me violou durante anos, depois fui parar a uma ilha cheia de ciclopes e espetei um tronco no olho de um deles, depois vieram as sereias...
PENÉLOPE: Basta! Chega de desculpas! E a guerra?
ULISSES: Espectacular! Construí um cavalo de madeira... Aonde vais? Ainda não acabei!
PENÉLOPE: Vai tratar dos pretendentes. Falamos depois.

Enquanto se afastava, Penélope não pôde deixar de sorrir. Não era importante a justificação da ausência; era importante a felicidade que sentia pela presença. Era o homem ideal, sempre pronto para a bravura e para a honra e, sobretudo, sempre disposto a ausentar-se. Ulisses nunca havia reparado que Penélope nada percebia acerca das tarefas domésticas e os pretendentes, que se haviam instalado no palácio na sua ausência, começavam a colocar em cheque os dotes de Penélope, ela que há dez anos tecia a mesma peça de roupa.